Tarde de Domingo. Por do sol, céu rosa. Friozinho repentino, agradável.
Pode parecer estranho, mas eu adoro o Domingo. Poderia dizer que é o dia que mais aprecio da semana. Mas não digo.
Talvez seja porque aqui no asilo, Segunda-feira não signifique nada. Nem trabalho, nem estudo, nem nada fora do comum, da rotina. Talvez seja porque Domingo é depois do Sábado. Talvez seja porque eu odeio o Sábado.
Dia de visitas. Humpf. Dia em que sua família cumpre a obrigação de vir te ver, pra que você não se sinta sozinho. Como se toda a hipocrisia que eles trazem junto não aumentem sua solidão. Melhor seria se eles não viessem, não se comprometessem.
Não que a minha família venha, eles me colocaram aqui porque não tem tempo pra mim. Nem aos Sábados. É engraçado. Imagino como foi que tive tempo pra eles. Como foi que tive tempo para aninhá-los, niná-los, cantar, preparar mamadeira, banhá-los, ser pai. Me pergunto como tive tempo para cuidar dos filhos dos meus filhos quando estes queriam sair nos fins-de-semana.
Não é rancor, não é mágoa. É velhice.
Quando você está velho como eu, parece que lhe arrancam a crosta que você construiu enquanto vivia, deixando-o como um pássaro depenado, sensível a qualquer toque. Sua aparência, o abandono, o frio nas tardes, a falta de sensibilidade, a falta do amor, e todas as coisas que te machucaram pelas quais você passou na vida, tudo, é como se fosse um arranhão na sua pele sensível exposta.
E você começa a se perguntar o que aconteceu. De repente, você está em uma cadeira de rodas, sem enxergar um palmo à sua frente, com qualquer mão fria te dando uma papa sem gosto na boca. Você não pode comer, foder, ver, amar. Seu coração está guardado em uma caixa dura, fria, de vidro.
E a unica coisa que te alegra são os Domingos. Assim, com o céu rosa, com o friozinho por baixo dos cobertores, sentado na sua cadeira dura. Vai entender? Ao menos esse momento te faz bem.
No final das minhas contas, velhice é o purgatório pós-morte. A igreja não está de todo errada.
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