Era uma casa de loucos. Grades nas janelas, duas portas, uma mãe, um pai e um filho.
O pai, outrora sorveteiro, agora passava o tempo em dois mundos, falando com a mulher de seus sonhos. Amava tanto a esse mundo, que do outro já desistira, sua sina agora era ficar paralisado enquanto corria na imaginação. Podia-se ver na sua expressão um sorriso crônico, e os olhos voavam por toda a face, por trás dos óculos de grau.
Tinha aquele olhar de perdido, que encontramos normalmente nesse tipo de gente. Tinha dentes amarelos, sem escovar. Tinha os cabelos oleosos, a barba crescida, e o pescoço caído.
Quem olhava pro homem, percebia sua ausência física, e se assustava ao ouvir as histórias de seu mundo descoberto.
Homem já não era, esquecera dos amigos, das pessoas, da esposa, do filho. No seu mundo tinha tudo isso, e sentia falta apenas de cheiros, que seu nariz lá não estava.
Já a mãe, tinha de todos os tipos de compulsões e transtornos obsessivos: sua vida era limpar, tirar, ajeitar, roer, piscar, e todas as loucuras que se veem por aí. Separava cores, juntava objetos de mesmo elemento, e idealizava o mundo perfeitamente organizado, cada coisa em seu lugar. Lugar esse que ELA achava melhor.
A mulher, tão fora de si, na hora do jantar arrumava a família, separando cores para as roupas e pratos, arrumando e deasarrumando a mesa cinco vezes antes de finalmente servir. Toalha de mesa, talheres, jogos de prato, roupas e penteados: tudo na sintonia do dia.
Sua vida se tornou tão compulsiva, que de sua família esqueceu, transformou-os em seus fantoches, como nas brincadeiras dos tempos infantis: veste isso, senta ali, levanta o braço, reza pra Deus.
O filho, o mais doce, endoidara por motivos dos pais, mas tinha como loucura o mais comum: passava as tardes debruçado sobre as grades da janela, esperando seu amor.
E eis que às sete de manhã e à uma hora da tarde, ela passava, olhando pro chão, desatenta, ouvindo música em seus fones. Mochila nas costas, sempre dejeans sujo, os cabelos louros amarrados, deixando os olhos brilhantes à mostra.
E ele olhava-a passar, prestando atenção nos seus passos um pouco tortos, na música alta, que se podia ouvir de lá da janela, no ritmo de seu andar - que a cada dia combinava com a música que ouvia - desleixado, na cor da camisa que usava e no movimento dos braços livres, que não sabiam o que fazer, fugiam sempre pra boca, que roía as unhas sem esmalte.
Todo o seu coração e olhos se viravam para aquela garota, e ele apreciava cada segundo em que ela aparecia. Sentia seu coração pular, e abria um sorriso tolo, de louco, enquanto seus olhos brilhavam mais que os dela. Até que ela ia embora, e ele ficava lá esperando até a tarde, até a noite, até o outro dia, sua vida na janela, atrás das grades.
Era uma casa de loucos, desvairados. No meio da ladeira, cor de laranja, como as telhas. E todo mundo que passava pela frente, suspirava de pena, sem saber que aqueles loucos viviam muito mais do que eles, em seus mundos paralelos de cores.
domingo, 19 de setembro de 2010
Cor de laranja
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