domingo, 19 de setembro de 2010

Cor de laranja

Era uma casa de loucos. Grades nas janelas, duas portas, uma mãe, um pai e um filho.
O pai, outrora sorveteiro, agora passava o tempo em dois mundos, falando com a mulher de seus sonhos. Amava tanto a esse mundo, que do outro já desistira, sua sina agora era ficar paralisado enquanto corria na imaginação. Podia-se ver na sua expressão um sorriso crônico, e os olhos voavam por toda a face, por trás dos óculos de grau.
Tinha aquele olhar de perdido, que encontramos normalmente nesse tipo de gente. Tinha dentes amarelos, sem escovar. Tinha os cabelos oleosos, a barba crescida, e o pescoço caído.
Quem olhava pro homem, percebia sua ausência física, e se assustava ao ouvir as histórias de seu mundo descoberto.
Homem já não era, esquecera dos amigos, das pessoas, da esposa, do filho. No seu mundo tinha tudo isso, e sentia falta apenas de cheiros, que seu nariz lá não estava.
Já a mãe, tinha de todos os tipos de compulsões e transtornos obsessivos: sua vida era limpar, tirar, ajeitar, roer, piscar, e todas as loucuras que se veem por aí. Separava cores, juntava objetos de mesmo elemento, e idealizava o mundo perfeitamente organizado, cada coisa em seu lugar. Lugar esse que ELA achava melhor.
A mulher, tão fora de si, na hora do jantar arrumava a família, separando cores para as roupas e pratos, arrumando e deasarrumando a mesa cinco vezes antes de finalmente servir. Toalha de mesa, talheres, jogos de prato, roupas e penteados: tudo na sintonia do dia.
Sua vida se tornou tão compulsiva, que de sua família esqueceu, transformou-os em seus fantoches, como nas brincadeiras dos tempos infantis: veste isso, senta ali, levanta o braço, reza pra Deus.
O filho, o mais doce, endoidara por motivos dos pais, mas tinha como loucura o mais comum: passava as tardes debruçado sobre as grades da janela, esperando seu amor.
E eis que às sete de manhã e à uma hora da tarde, ela passava, olhando pro chão, desatenta, ouvindo música em seus fones. Mochila nas costas, sempre dejeans sujo, os cabelos louros amarrados, deixando os olhos brilhantes à mostra.
E ele olhava-a passar, prestando atenção nos seus passos um pouco tortos, na música alta, que se podia ouvir de lá da janela, no ritmo de seu andar - que a cada dia combinava com a música que ouvia - desleixado, na cor da camisa que usava e no movimento dos braços livres, que não sabiam o que fazer, fugiam sempre pra boca, que roía as unhas sem esmalte.
Todo o seu coração e olhos se viravam para aquela garota, e ele apreciava cada segundo em que ela aparecia. Sentia seu coração pular, e abria um sorriso tolo, de louco, enquanto seus olhos brilhavam mais que os dela. Até que ela ia embora, e ele ficava lá esperando até a tarde, até a noite, até o outro dia, sua vida na janela, atrás das grades.
Era uma casa de loucos, desvairados. No meio da ladeira, cor de laranja, como as telhas. E todo mundo que passava pela frente, suspirava de pena, sem saber que aqueles loucos viviam muito mais do que eles, em seus mundos paralelos de cores.

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