quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Caiu do espaço

Depois de um dia chuvoso, eu estava lá, sentado no banco, com vontade de ir embora, mas preguiça de pôr os pés no chão.

Ficava lá, parado, olhando as folhas caírem e as pessoas irem e virem o tempo todo, sempre me perguntando o que era que elas pensavam e o que estavam vivendo naquele momento. Sempre faço isso, e sempre acabo me assustando com o tamanho do mundo.

E eis que ela passou.

Parecia não pertencer ao nosso mundo, parecia ter toda uma atmosfera ao seu redor, todo um contorno de anéis, parecia enorme, brilhante, quente. Acolhedora, fria, azul e vermelha.

Dançava uma música inexistente, os olhos fechados. Naquele momento, ela parecia pronta pra ignorar qualquer coisa: o fim do mundo, de sua vida, da vida de quem amasse. Parecia estar pronta pra cair milhões de metros, pra se ferir, pra sorrir, pra chorar.

E as pessoas a olhavam com desprezo. Com pena, estranheza, frieza. As pessoas comuns tem o hábito de odiar o estranho, o não-natural.

Eu simplesmente sorria. Não conseguia tirar os olhos dela, esperando que ela abrisse os olhos, e eu pudesse ver a cor que as pálpebras escondiam. Esperava que ela sorrisse, e mostrasse sua magia por covinhas. Esperava que ela levantasse as sobrancelhas e me desse uma nova expressão facial pra admirar. Esperava que ela olhasse pra mim, e então eu poderia estar pronto pra qualquer coisa também. Queria que ela soltasse o cabelo, e deixasse que o vento levasse o cheiro do seu mundo se espalhar por aquelas folhas, por aquele dia chuvoso, por mim.

E ela não parecia querer sair desse estado. É claro. Se eu pudesse! Se eu pudesse algum dia sentir algo como aquilo, ficaria ali pelo resto da vida, sozinho ou não.

Mas eu precisava fazer alguma coisa. Precisava ser notado, precisava entrar naquele universo, nem que fosse pra sentir seu cheiro.
Levantei e fui até ela. E esbarrei.

Na hora, parecia muito normal. Mas assim que o fiz, meu rosto se avermelhou. Fique com vergonha. Vergonha de interromper um momento tão lindo por puro egoísmo. Por puro amor. Por puro.

E ela parecia ter acordado de um transe. Abriu os olhos. Olhos claros, não sei exatamente de que cor. Brilhavam, refletiam doçura. Meu coração saltou quando pude ver suas sobrancelhas formarem um desenho de preocupação. Todo o seu rosto se desfez e se fez novamente. Toda ela me olhou, e se virou pra o que tinha acontecido. E então eu ouvi sua voz:
"Desculpe".

Ela falava no tom da música inexistente que dançava. Música que não era mais inexistente. Agora eu a ouvia também. E eu até poderia dançar, se não estivesse flutuando e tremendo, se não estivesse louco, atordoado, aturdido.

"Eu... Eu..."

'Eu não queria, foi sem querer.' Eu poderia ter respondido isso. Eu poderia ter dado qualquer resposta e ter ido embora. Eu poderia ser gentil e lhe passar uma dessas cantadas que eu odeio, e poderia ser o mais normal possível. Mas se tivesse agido assim, nada seria como é hoje. Então não me arrependo de ter respondido:

"Eu só queria entrar no seu universo. Me desculpe. A música é mesmo linda. Seus olhos também. Qual é o seu nome? Imagino que seja algo tão singular como você. Me desculpe, mesmo. É que eu estava ali sentado, e você parecia ter caido do espaço. Precisava te entender. Você sabia que eu estaria aqui? Sua expressão me diz que sim. Me desculpe."

Ela ficou em silêncio por muito tempo. Tanto tempo que a sua música já tinha me feito dançar quando ela respondeu:

"Meu nome é Estela. Sabe o que significa? Significa Estrela, em alemão. Eu realmente caí do espaço."

E então, ela riu. Eu não vou tentar descrever como era seu riso, nem como conversamos por doze horas em uma cafeteria qualquer. Nem como nós passamos a nos ver todos os dias, e como dançávamos por horas. Não vou tentar descrever como foi o seu beijo, ou como nós compartilhamos nosso mundo. Não vou tentar por em palavras como foram os anos que passei com ela, e como vivemos juntos pelo infinito. Não vou tentar dizer como foi que meu coração, eu e meu universo, - nosso universo - ficou quando minha Estrela explodiu no espaço.

A única coisa que digo é que hoje é Julho, e hoje faz quarenta anos que eu a vi pela primeira vez. Aqui, sentado nesse banco de madeira, vendo as folhas caírem e olhando para as pessoas. Aqui, imaginando onde a minha Estrela está, e lhe dedicando minha vida e meus suspiros eternos.

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