Já era tarde, e eles continuavam ali.
Nenhum dos dois estava dormindo, mas fingiam. Mantinham os olhos fechados e a respiração profunda, abraçados no sofá. Estavam disfarçando para si mesmos o que estava acontecendo.
Na outra sala, os amigos dormiam profundamente, cada um em um colchonete.
“Talvez seja hora de irmos deitar. Não está desconfortável?”
Ele se chama Ferdinand. Carregava o nome como um fardo, desde que nascera. Ninguém o levava a sério.
Não era um completo solitário. Tinha o clube do livro, os amigos virtuais e aqueles que estavam no quarto ao lado. E tinha ela.
Ao contrário do de sempre, ele nunca tinha realmente pensado nela antes. Nem ela nele. As coisas simplesmente aconteceram assim, rápidas. Para os dois.
Quando cresceram, surpreenderam-se com a quantidade de pessoas que não acreditavam em amor mútuo ao acaso. Mas isso é uma coisa que vai longe demais. Começa nos filmes de maçã do amor, e acaba nos olhos de quem ouve.
O fato é que eles estavam lá, encolhidos em um sofá onde cabiam mais quatro, e ele, depois de tanto tempo, conseguira sair daquele jogo de fingimentos e dizer alguma coisa.
“Você gosta?”, ela perguntou, como se não tivesse ouvido a pergunte dele.
Tinha essa mania: na maior parte do tempo, ignorava as perguntas comuns, e soltava alguma loucura. Por exemplo, se você perguntasse a ela qual era sua cor favorita, ela poderia demorar horas te respondendo. Mas se lhe perguntasse como fora seu dia, ela te perguntaria qual era a sua cor favorita.
Cada amigo seu tinha lhe repetido a cor favorita mais de cinco vezes, mas pareciam não perceber o fato.
“Se eu gosto? Gosto do que?”
Naquele momento, ele gostava de quase tudo. Gostava da casquinha de pipoca no dente, do cheiro da garota que estava em seus braços, da garota que estava em seus braços, do fato de uma garota estar em seus braços, e da cor do sofá.
“Se você gosta da cor desse sofá. Eu sempre me perguntei que cor era. Mas sempre foi a minha cor favorita. E sempre que me perguntam qual é a minha cor favorita, eu não sei responder. E eu acabo me enrolando e dizendo algo que não tem nada a ver com esse sofá... Na verdade, na grande verdade, eu gosto da cor desse sofá quando estamos sentados em cima dele. E quando você encosta a sua mão na minha desse jeito. E eu nunca tinha percebido isso antes, sabe... É estranho.”
Mais uma vez, ela estava fazendo um monólogo por uma pergunta que não tinha sido respondida. Era tudo muito confuso com Julia.
Quando ela era pequena, seu tio escreveu um pequeno livro de dez páginas infantil, intitulado “O que está havendo com Julia?”. E para Ferdinand e seus amigos aquele era um nome absurdo, porque nunca se podia saber exatamente o que se passava com Julia. Ninguém nunca tinha ido tão longe a ponto de conseguir ser respondido de verdade por ela. Nem mesmo a sua mãe.
“É... Eu gosto. Posso perguntar que cor é pra minha mãe, se quiser. Mas... Você gostava desse sofá antes de... Sabe, hoje?”
Se existia alguém inseguro naquele grupo, esse alguém não era nenhum dos dois encolhidos naquele pedaço de almofada. Os dois sabiam o que eram e o que não eram, e estavam acostumados com isso.
Quando crianças testaram muito bem seus limites e preferências. Uma vez tentaram ser alienígenas. Até hoje testam, embaixo dos lençóis. Mas isso ninguém sabe completamente, e você também não vai saber.
“É uma boa pergunta. Eu demoraria muito pra ter uma resposta pra ela, sabe. E acho que é porque eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Mas isso não quer dizer que eu não tenha sentido. E eu não sei se eu senti , se não pensei. Entende? É tudo muito complexo. Sabe, eu sempre gostei do jeito que você me pergunta as coisas. Quero dizer. Eu sempre gostei das suas perguntas. Me fazem querer dar respostas. Me sinto uma artista de rock sendo entrevistada. Talvez isso seja algum coisa que eu senti, mas não pensei.”
Ficaram em silêncio. Ele tinha medo de falar e incentivar um novo monólogo. Não que ele não gostasse. Ele tinha acabado de perceber que adorava ouvi-la falar tão abertamente. Pensando e falando, pensando e falando...
“... E não precisa perguntar pra sua mãe que cor é. Talvez a minha cor preferida eu não consiga ver, de verdade. Sabe? Agora esse sofá é a minha cor preferida, mas se eu levantasse e fosse me deitar, a cama seria... O que responde à sua primeira pergunta. Viu só? Você me faz falar.”
Eles não tinham se beijado. Estavam encostados um nos outros com as mãos dadas, e de repente perceberam que se amavam. Talvez desde nascidos. E isso era engraçado. Engraçado o suficiente para suprir a falta de beijos, por enquanto.
“Acho que isso é bom, não é? Bom. No final das contas, não sei se algum dia eu pensei nisso antes. Entendo o que você quer dizer. Talvez a gente tenha sempre sentido e pensado, e só não sabemos. Eu acho que eu moro fora de mim. Eu acho, agora, que eu moro em você. Talvez isso explique muita coisa. Talvez isso só gere mais perguntas.”
"Tinha essa mania: na maior parte do tempo, ignorava as perguntas comuns, e soltava alguma loucura. Por exemplo, se você perguntasse a ela qual era sua cor favorita, ela poderia demorar horas te respondendo. Mas se lhe perguntasse como fora seu dia, ela te perguntaria qual era a sua cor favorita." A D O R E I! eu normalmente não gosto de histórias de amor porque são muito previsiveis, mas essa personagem, Julia, é muito caricata! parabéns!
ResponderExcluirliquidlucky.blogspot.com vê, por favor? tô seguindo *-*
brigada! vejo sim (:
ResponderExcluirEngraçado, pois me apaixonei pela Júlia.
ResponderExcluirA cada monólogo dela meu coração acelerava.
A maneira com que você escreveu foi tão meiga e tão tocante que não tem como não se apaixonar. Um texto rico em detalhes, realmente impressionante.
Estou seguindo.