domingo, 26 de dezembro de 2010
na parede do banheiro
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
canadés
Olhei ao redor: na sala, várias pessoas com caras e tons diferentes sentadas no sofá e conversando sobre coisas que eu nunca entenderia. Fazia barulho, e eu estava enjoada.
Mas já era muito tarde para fingir que não via e subir as escadas mais uma vez. Já tinha passado muito tempo desde a última vez que eu decidira fechar os olhos e tropeçar no mesmo segundo degrau, para depois desabar no quinto e me arrastar até o último.
Eu decidira, alguns minutos atrás, que iria tentar encontrar o que havia neles que me provocava tanto medo de mim mesma.
Tropeçando em pés e em olhos assustados e curiosos, sentei-me no canto do sofá e esperei. Não sabia o que esperar, mas alguma coisa certamente viria. Até que ela se virou:
- Afinal, o que está procurando?
Na nossa frente, um homem que parecia uma lebre de monóculo estava servindo chá. Uma bandeja em cada orelha, duas cartolas em cada mão. Uma xícara em canapé. Cada pé.
- Não sei. Achei que vocês me diriam.
Ela se virou para seus companheiros e riu. Depois, voltou-se para mim novamente e me encarou por alguns segundos, só pra me assustar. E tinha resultados.
- Dizer o quê? Não é você que sempre passa por aqui e nos ignora? Nós te convidamos para a nossa festa, te oferecemos chás e cadapés, e você nunca nem ao menos acenou a cabeça!
- Mas eu...
-... Passa correndo, correndo como se nada importasse, e nós... coitados! coitados de nós, não é Roseline?
Uma mulher de vestido vermelho e cabelo atado no lugar mais alto possível virou-se, balançando os brincos. Sua voz parecia ser a de duas pessoas ao mesmo tempo:
- Pois sim, pois sim. Coitados de nós, Margie.
Na minha frente, o homem-lebre parecia derrubar tudo ao mesmo tempo que mantia o perfeito equilíbrio, oferecendo-me o chá. Mais do que uma oferta, parecia uma ameaça.
Peguei um cadané com as duas mãos e acomodei a xícara nas bandejas, enquanto Margie e Roseline sussurravam algo entre elas.
- Obrigado - disse o homem-lebre - mas a tarefa de levar os chás e os nadacés é minha. Irritado, virou-se e saiu balançando o pompom.
Naquele momento, eu já não tinha certeza de que eu realmente queria estar ali. Os rostos e corpos ao meu redor começavam a deformar-se, e as aranhas começavam a invadir os cantos.
- Olha, eu acho que tenho que ir agora...
- Ir? Aonde? Você tem para onde ir?
Pouco a pouco, seus rostos começaram a tornar-se assustadores, seus sorrisos cresciam e confundiam-se com seus olhos, e suas mãos se esticavam até meu rosto, as unhas vermelhas bem na minha frente.
Por impulso, fechei os olhos. E de certa forma, arrependo-me de ter fechado. Mas na hora tudo o que eu conseguia fazer era apertá-los mais e mais, e pressionar minhas mãos contra eles.
Quando abri, eu já sabia o que veria: o mesmo sofá de couro marrom, as mesmas paredes verdes e brancas e a mesma escada, me chamando para subir e ignorá-los mais uma vez.